





O Brasileiro que Idealiza a Ditadura
e Ignora os Fatos
Dez/2024
O apoio de uma parcela significativa da população brasileira à ditadura militar de 1964 e a defesa de um retorno a um regime autoritário refletem uma visão distorcida da história, alimentada por uma seletividade histórica que omite os abusos, as injustiças e as violações dos direitos humanos daquele período. Para muitos, o regime militar é lembrado como um período de ordem e progresso, uma época de suposta estabilidade política e crescimento econômico. Contudo, essa idealização da ditadura se baseia em uma narrativa que nega a realidade dos abusos cometidos, escondendo a repressão brutal, os assassinatos, as torturas e as violações de direitos humanos, bem como os diversos escândalos de corrupção que marcaram o regime.
A ditadura militar foi marcada por uma repressão implacável aos opositores, censura e violência. Milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas e assassinadas em nome da luta contra um suposto "perigo comunista", em um contexto de crescente repressão política. Contudo, para boa parte da sociedade brasileira, principalmente entre as elites conservadoras e setores militares, a repressão foi vista como um mal necessário, algo justificável diante da ameaça comunista. Essa visão convenientemente apaga os abusos cometidos contra civis, os desaparecimentos forçados e as famílias destruídas pelo regime. A memória desse período, para esses setores, parece se resumir a uma tentativa de garantir uma "ordem" que justificaria as atrocidades cometidas.
No entanto, o regime militar não foi apenas uma época de repressão, mas também de graves escândalos de corrupção e favorecimento de elites políticas. O “milagre econômico” dos anos 70, que muitas vezes é citado como um dos grandes legados da ditadura, escondeu um crescimento desigual e uma série de esquemas de enriquecimento ilícito. Diversos projetos financiados com recursos públicos envolveram o desvio de dinheiro, favorecendo empresários e políticos aliados ao regime. O caso do Projeto Jari, que visava a construção de uma grande planta de celulose, é um exemplo emblemático, pois envolveu a transferência de recursos públicos para beneficiar grupos empresariais com estreitas relações com o governo militar. Esses projetos, muitas vezes, foram marcados por superfaturamento e falta de transparência, o que prejudicou a economia do país e acentuou as desigualdades sociais.
Além disso, a corrupção permeou diversas áreas do governo, desde o superfaturamento de obras públicas até a manipulação de recursos para beneficiar empresários aliados ao regime. O governo militar foi marcado por um patrimonialismo que favoreceu uma elite política e econômica em detrimento do bem-estar da população. Muitas famílias, especialmente as ligadas a governadores de estados e outros aliados do regime, conseguiram acumular riquezas durante o período militar, com base em contratos públicos e benefícios econômicos que não estavam ao alcance da maioria da população.
Essa visão idealizada da ditadura, contudo, continua a ser alimentada pela frustração com o sistema democrático atual, que muitos veem como ineficaz para resolver os problemas do Brasil, como a corrupção, a desigualdade social e a violência urbana. Para alguns, a nostalgia pela ditadura surge como uma resposta à percepção de que a democracia não foi capaz de transformar as condições do país. O regime militar, então, é ressignificado como um modelo de "ordem e progresso", ao qual muitos recorrem como uma alternativa à crise política e social vivida no presente.
A ascensão do bolsonarismo, com Jair Bolsonaro à frente, é um reflexo dessa insatisfação com a democracia e da busca por um governo autoritário como solução para os problemas do Brasil. Bolsonaro, um ex-militar, sempre se alinhou a símbolos do regime militar, minimizando os abusos cometidos pelos militares e defendendo figuras associadas à tortura e à repressão. Seu governo, caracterizado por ataques às instituições democráticas, à imprensa e a movimentos sociais, ecoa discursos autoritários que lembram o período da ditadura. Em sua retórica, ele também defende que o regime militar deveria ter sido mais eficiente, chegando a afirmar que mais opositores deveriam ter sido mortos.
Além disso, o governo de Bolsonaro se caracterizou por uma série de excessos, tanto em sua postura pública quanto nas ações de seu governo. O negacionismo em relação à pandemia de COVID-19, a disseminação de desinformação, e os ataques constantes à credibilidade das eleições de 2022, quando questionou sem provas a segurança das urnas eletrônicas, são exemplos claros de sua disposição em enfraquecer as instituições democráticas. Os casos de corrupção em seu governo, como o escândalo das "rachadinhas", que envolveu membros de sua família e aliados políticos, também estão ligados à mesma lógica de favorecimento e enriquecimento ilícito que marcou o período militar.
Esses abusos e excessos não se limitam ao campo político, mas também se estendem ao campo econômico. Durante o governo de Bolsonaro, houve uma série de escândalos envolvendo o superfaturamento de compras públicas, denúncias de desvios de recursos e a manipulação de licitações para beneficiar aliados próximos, dentre tais denúncias, 0 superfaturamentos nas negociações de compra de vacinas, como o caso da vacina indiana Covaxin, comprada pelo Ministério da Saúde a um preço muito mais alto do que o valor pago por outros países; o superfaturamento na compra de respiradores no ano de 2020, em que o governo federal adquiriu respiradores para combater a crise de saúde, mas houve denúncias de que o preço pago pelos equipamentos estava muito acima do valor de mercado. Além disso, alguns contratos foram feitos com empresas que não tinham experiência no fornecimento de equipamentos médicos, levantando suspeitas de favorecimento e corrupção.
Outro episódio de superfaturamento envolveu a aquisição de medicamentos e materiais utilizados no tratamento de pacientes com COVID-19. A compra de cloroquina e outros produtos sem comprovação científica também gerou polêmica, além de denúncias de que esses produtos foram adquiridos a preços muito mais altos do que o mercado pagaria, prejudicando as finanças públicas.
Tais fatos agregados ao ambiente de corrupção e o uso do poder para garantir favores a familiares e aliados demonstram um padrão que remete às práticas de enriquecimento ilícito do regime militar, quando empresários e políticos aliados ao governo se beneficiaram de contratos públicos e esquemas de desvio de dinheiro.
A busca por um retorno a um regime autoritário, representado por figuras como Bolsonaro, reflete uma visão distorcida do passado, alimentada pela frustração com a democracia. Contudo, os abusos e excessos cometidos tanto durante o regime militar quanto sob o governo de Bolsonaro mostram que o autoritarismo não é a solução para os problemas do Brasil. Ao contrário, ele é um caminho perigoso que ameaça as conquistas democráticas do país e coloca em risco a estabilidade política e social. O apoio a esse modelo de governança, mesmo diante de tantos abusos, revela não apenas um desconhecimento dos danos causados pelo autoritarismo, mas também uma tentativa de regressar a um passado que, para muitos, nunca deveria ser relembrado.
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